Histórias dos Violões na Velha São Paulo – Podcast | T.02 ep.03

Olá, pessoal, muito bem-vindos. Neste episódio, vamos falar de um homem que passou quase cinquenta anos em São Paulo construindo violões — e que, por muito tempo, foi lembrado apenas por uma invenção curiosa.

Seu nome: Francisco Pistoresi.

E a história que você vai ouvir começa com um engano.

Durante anos, textos especializados apresentaram Francisco Pistoresi como português. A informação circulou em periódicos, passou de boca em boca e acabou se fixando como verdade.

Mas quando sua certidão de óbito foi localizada, o documento era claro: Pistoresi havia nascido em Lucca, na Itália, em 1868.

Esse tipo de equívoco não é casual. Ele revela algo sobre como a nossa história foi construída, muitas vezes baseada em memória oral, sem confronto com documentos dispersos hoje passíveis de localização.

Casos semelhantes ocorreram com outros personagens. O violonista valenciano Praxedes Gil-Orozco, de quem falamos no episódio 3 da nossa primeira temporada, ativo em São Paulo entre 1890 e 1907, foi durante décadas apresentado como cubano.

Corrigir a origem de Pistoresi não é apenas um detalhe.

É recolocá-lo no contexto que explica sua trajetória: o da São Paulo do final do século XIX, marcada pela chegada massiva de imigrantes europeus, que traziam em suas bagagens suas práticas, seus instrumentos, seus ofícios e suas músicas.

Foi em 1892 que Pistoresi fundou sua oficina de instrumentos de cordas em São Paulo.

A cidade passava por transformações profundas: a escravidão havia sido abolida poucos anos antes, a República ainda era recente, e a imigração reconfigurava bairros inteiros.

A rua Santa Ifigênia, no centro da cidade, onde Pistoresi se instalou, era uma das regiões mais ativas do centro — cheia de comércios, oficinas e atividades ligadas à música.

Não por acaso, outros luthiers também atuavam ali. A Casa Universal, nas primeiras décadas do século XX, por exemplo, importava não apenas instrumentos e cordas da Espanha, mas também artesãos recrutados em Valência para trabalhar na construção de violões na cidade.

Em 1904, Pistoresi representou São Paulo na Exposição Internacional de Saint Louis, nos Estados Unidos, onde seus violões e bandolins receberam o primeiro prêmio. A conquista foi divulgada na imprensa. Antes disso, em 1902, já havia sido premiado na Exposição Municipal de São Paulo.

Em 1914, ele volta a ser notícia nos periódicos, em razão de um invento curioso: o diamenofone:



A imprensa destacou o invento. E foi justamente esse episódio que ficou colado ao nome de Pistoresi na memória da história do instrumento, como uma curiosidade.

Mas, observado de perto, o diamenofone tem um sentido mais amplo.

A São Paulo daquele momento, assim como diversas capitais ocidentais, estava em transformação: a população aumentava, os teatros cresciam, os cinemas se multiplicavam, os espaços de apresentação se ampliavam. O violão, instrumento íntimo, precisava projetar mais som.

Pistoresi respondia, à sua maneira, a uma questão técnica que mobilizava músicos e construtores em diferentes partes do mundo. Na Espanha, décadas antes, Antonio Torres desenvolveu um violão maior, com estrutura interna mais robusta e mais ressonante, em diálogo com músicos como Julián Arcas e Francisco Tárrega, definindo as bases do que viria a ser o violão moderno. Em São Paulo, nesse mesmo período, Gil-Orozco se apresentou com um instrumento de onze cordas do próprio Torres, também na busca por mais projeção sonora e por maior tessitura.

Além de Alberto Baltar, compositor e violonista abordado no episódio 4 da primeira temporada, outra violonista que utilizou os instrumentos de Pistoresi foi Josefina Robledo, célebre discípula de Francisco Tárrega, que atuou em São Paulo a partir de 1917.



Os violões Pistoresi tinham trajetória, reconhecimento e circulação. Mais do que um artesão isolado, Pistoresi fazia parte da infraestrutura que sustentava a presença do violão na cidade. Faleceu em 1940, mas seus violões continuaram a circular. Nas décadas seguintes, dois dos mais importantes pedagogos do violão em São Paulo mantinham Pistoresis entre seus instrumentos: Isaías Sávio e Manuel São Marcos. Foi assim que uma nova geração teve contato com esses violões. Paulo Porto Alegre e Maria Lívia São Marcos, filha de Manuel, tocaram em instrumentos construídos por Pistoresi no início de seus estudos.



A frase é publicitária, mas revela algo concreto: Francisco Pistoresi nasceu em Lucca, veio para São Paulo, abriu uma oficina e construiu instrumentos premiados que circularam por salões, conservatórios, rádios e ateliês da cidade. Inventou soluções para um instrumento que buscava novos espaços.

E, ainda assim, foi sendo esquecido.

Mas um som permaneceu.

Décadas depois, um desses instrumentos chegou às minhas mãos, por meio da musicista e pesquisadora Márcia Taborda. O violão mantém seu selo, sua estrutura — e uma sonoridade moldada pelo tempo e pelo uso. Desde então, ele integra minha prática como intérprete e pesquisadora. É com ele que foram gravadas as peças que vocês ouviram neste episódio. Construído há mais de um século, é através dele que esta história volta a ser ouvida.

Muito obrigada e até a próxima história!


CRÉDITOS
Pesquisa, Roteiro e Narração: Flavia Prando
Dramatizações: Artur Mattar
Voice-over: Biancamaria Binazzi

Trilhas e obras:

Vinheta — Sabãozinho, João Avelino de Camargo, arranjo Edmar Fenício. Violão: Flavia Prando.

Saudosa, valsa de Mário Amaral, melodia arranjada por Edmilson Capelupi. Violão Francisco Pistoresi: Flavia Prando.

Céu do Paraná, Leopoldo Silva. Violão Francisco Pistoresi: Flavia Prando.

Captação de áudio: Caio Balestra Mix e Master: Caio Balestra Produção executiva: Flavia Prando Estúdio: Lém7

FLAVIA PRANDO Escrito por:

Violonista, pós-doutoranda pelo IEB-USP, doutora e mestre em Música pela USP e bacharel em Música UNESP. É coordenadora de programação do CPF-SESC e pesquisadora associada do Laboratório de História da Cultura Sonora da FFLCH-USP.. Atuou como regente da Camerata de Violões Infanto-Juvenil do Projeto Guri Santa Marcelina (2022-2024).

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