Histórias dos Violões na Velha São Paulo – Podcast | Temporada 2

Olá, pessoal, muito bem-vindos.
No episódio de hoje, seguimos acompanhando o violão na São Paulo das décadas de 1920 e 1930 para conhecer dois choros curtos de João Reis dos Santos: Bombardino e Serelepe.

São duas peças pequenas em duração, mas enormes em significado, pois revelam um compositor que transitou entre dois estados e dois modos de escrever choro, e que encontrou em São Paulo um espaço fértil para a sua atividade musical.

Embora João dos Santos tenha nascido no Rio de Janeiro, em 1886, foi em São Paulo que sua obra circulou, ganhou público e se misturou à prática local do violão, a ponto de Hermínio Bello de Carvalho tê-lo citado como um músico paulista. Essa adoção diz muito: João viveu intensamente o circuito paulista — tocando, promovendo programas, participando de conjuntos que animavam a vida musical da capital, e atuando também em cidades como Campinas e Santos.

Ele passava temporadas em Campinas, onde, além de ministrar o instrumento, organizava concursos e apresentações patrocinadas por importantes casas comerciais da cidade. Em 1936, promoveu um concurso para classificação dos melhores acompanhantes:


“Os solos a serem acompanhados pelos concorrentes, composições de João dos Santos, serão executados ao violão pelo próprio autor. A programação inclui ainda músicas para trio e sexteto de violões e peças solo interpretadas pelo compositor.”
Campinas, 1936.


Esses registros — tanto das atividades desenvolvidas em Campinas quanto da presença constante em São Paulo — aparecem na imprensa da época e ajudam a reconstruir a amplitude da atuação de João dos Santos. Um desses registros, do início da década de 1930, traz notícias sobre sua participação em um concurso que movimentou a imprensa da capital paulista:


“João dos Santos, violonista, natural do Rio de Janeiro, recebeu grande votação no concurso da Rádio Gazeta e participa ativamente do certame, organizando programas e apresentando composições próprias.”
A Gazeta, 16 abr. 1931


Esse trecho resume bem quem ele era naquele momento: um músico em plena circulação, com repertório próprio, sendo ouvido, comentado e solicitado.

E essa presença não se limitava ao rádio. Em diferentes momentos, João participou de audições e tocou em formações conjuntas, como o quarteto de Masseran, ativo no início da década de 1920:


“João dos Santos, integrante do quarteto de Masseran, tomou parte em audições realizadas na capital, revelando linguagem instrumental apurada.”
Correio Paulistano, fev. 1921


Essas notas mostram um músico que não estava isolado: ele integrava redes, se apresentava em conjunto, ensinava, registrava músicas em partituras, preparava programas de rádio e circulava com desenvoltura no ambiente urbano e artístico da cidade.

A escrita de João dos Santos também revela essa vida em trânsito. Ele compôs tanto choros mais longos, em forma rondó, com três partes distintas — como Paulista e Carioca, associados à tradição carioca — quanto choros curtos, ternários, em forma ABA, que Manoel Corrêa do Lago identifica como um padrão típico dos choros paulistanos: mais lentos que o choro praticado no Rio de Janeiro e mais concisos, com apenas duas partes.

É justamente nesse universo dos choros curtos que encontramos Bombardino e Serelepe.

Bombardino, publicado no Volume 3 da coleção Violões na Velha São Paulo, é um choro em duas partes, construído com clareza e economia. A primeira parte, em ré maior, inicia no agudo e logo é respondida por um desenho no baixo; pequenos arpejos sustentam o motivo, reforçando o balanço característico do gênero. A segunda parte, em si menor, retoma essa alternância entre regiões do instrumento, com desenhos que parecem deslocar o choro para outro ponto da cidade, apoiados por arpejos e pequenos motivos rítmicos.

A precisão da escrita de João aparece na simplicidade com que ele articula movimentos mínimos do instrumento, alinhando gesto e intenção musical.

Serelepe, presente no Volume 1 da coleção, é também um choro curto, ternário, mas agora com energia e leveza. O nome faz justiça à música: Serelepe salta, corre, muda de direção. A escrita explora saltos de posição, padrões rápidos e pequenos diálogos entre vozes — como se registrasse a pressa e a brincadeira de uma cidade que aprendia a andar mais rápido.

Essa vitalidade conversa com outra característica de João lembrada pela imprensa e pelos músicos: a fama de escrever modulações inesperadas “para derrubar os colegas”. Embora essa prática apareça com mais força em choros como Carioca, há uma centelha desse humor musical em Serelepe, que parece sempre pronto a surpreender.

Vale mencionar que “Serelepe” também era o apelido de um violonista atuante no mesmo período. Ele aparece nas matérias sobre o já citado Concurso de 1931, no qual João dos Santos teve participação ativa. A imprensa chegou a publicar uma foto desse músico, mas praticamente nada sabemos sobre ele, nem mesmo seu nome completo.

Não é possível afirmar se há relação entre o intérprete e o título da peça, mas a coincidência revela como esses ambientes se cruzavam e como certos apelidos circulavam entre os violonistas da época.

A imprensa ainda registra episódios curiosos que revelam a amplitude da atuação de João. Em uma nota de 1931, A Gazeta apresenta um detalhe inesperado sobre sua participação em programas de rádio:


“Entre solos de violão de sua autoria, acompanhou dois cantores em composições. As letras das canções de João dos Santos são de autoria do jornalista Euclides da Cunha.”
A Gazeta, 24 abr. 1931


Não sabemos se essa parceria aconteceu de fato ou se o jornal recorreu a uma estratégia retórica para enobrecer o programa, mas a menção revela o tipo de circulação e reconhecimento que João dos Santos tinha naquele momento: um nome presente, lembrado e tocado — mesmo quando suas obras sobreviveram apenas em manuscritos.

No conjunto, Bombardino e Serelepe formam um pequeno díptico sonoro da São Paulo dos anos 1920. São choros curtos e cheios de personalidade: o primeiro mais contido, o segundo mais brincalhão. Ambos carregam a marca de um compositor que, embora carioca, foi adotado pela estética paulistana a ponto de incorporá-la plenamente — e também transformá-la.

Seguimos, assim, reabilitando um repertório que, por muitos anos, permaneceu silencioso, mas que hoje volta a ser ouvido e estudado justamente porque essas peças curtas guardam fragmentos preciosos da história musical da cidade.

Ouçam Bombardino e Serelepe — as gravações estão disponíveis no Spotify e nas demais plataformas digitais.
Eu sou Flavia Prando e agradeço a companhia em mais um episódio. Até a próxima.

CRÉDITOS:

Voice-over: Biancamaria Binazzi
Roteiro e narração: Flavia Prando
Dramatizações: Artur Mattar
Trilhas e obras: Vinheta – Sabãozinho, João Avelino de Camargo, Flavia Prando, violão; Música incindental: Paulista – João dos Santos, Flavia Prando
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FLAVIA PRANDO Escrito por:

Violonista, pós-doutoranda pelo IEB-USP, doutora e mestre em Música pela USP e bacharel em Música UNESP. É coordenadora de programação do CPF-SESC e pesquisadora associada do Laboratório de História da Cultura Sonora da FFLCH-USP.. Atuou como regente da Camerata de Violões Infanto-Juvenil do Projeto Guri Santa Marcelina (2022-2024).

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